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    Fisiologia da Saciedade

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    A fome chega como impulso. A saciedade chega como resposta. Só que essa resposta não depende de calorias, e sim do que o corpo precisa fazer para processá las. Dois alimentos iguais em energia podem gerar sensações opostas porque o sistema de saciedade é feito de etapas, não de um único sinal. A fisiologia torna isso claro desde que começaram a medir esses mecanismos com precisão.

    A saciedade não é um reflexo. É um conjunto de circuitos que negociam entre si.

    O estômago inicia o processo

    A primeira pista vem do estômago.
    Estudos de Bruce Phillips e colegas nos anos 1980 mostraram que a distensão gástrica é um dos gatilhos iniciais da saciação. Não é ainda saciedade verdadeira, mas informa ao corpo que algo entrou e que a digestão precisa ajustar seu ritmo.

    A partir daí o esvaziamento gástrico define o tempo interno. Pesquisas como as de Hunt e Stubbs (1975) mostraram que refeições mais densas ou ricas em gordura esvaziam mais devagar. Quanto mais lento esse processo, mais prolongada é a sensação de plenitude nas horas seguintes.

    Essa parte é pura mecânica.
    Mas mecânica aqui sustenta toda a fisiologia.

    O recuo da grelina e a ascensão dos hormônios intestinais

    A grelina, descoberta formalmente em 1999 por Kojima e colaboradores, é o sinal de fome. Ela cai assim que o alimento chega ao estômago. Esse recuo é o primeiro marco fisiológico da transição para saciedade.

    Quando o alimento avança para o intestino delgado, o corpo libera hormônios que sustentam a saciedade real.
    Entre eles:

    • GLP 1, descrito por Holst e outros nos anos 1980 e 1990, que reduz esvaziamento gástrico e aumenta plenitude
    • PYY, estudado por Batterham e colegas em 2002, que reduz ingestão subsequente
    • Colecistocinina (CCK), associada à saciação desde os trabalhos de Gibbs, Smith e Rolls no fim da década de 1970

    Esses hormônios não são metáforas bioquímicas.
    Eles modulam, de fato, o intervalo entre uma refeição e a próxima.

    A leptina, descoberta em 1994 por Friedman e colaboradores, age em escala mais longa. Ela avalia o estoque de energia do corpo e ajusta o apetite de forma crônica. Quando está baixa, o corpo interpreta risco. E risco exige comer mais cedo, mesmo depois de refeições grandes.

    A saciedade nasce da soma desses sinais que raramente se alinham por acaso.

    O intestino como órgão regulador

    O intestino não é só passagem. Ele é sensor e integrador.

    Estudos de fisiologia digestiva mostram que o tipo de alimento altera profundamente a intensidade da resposta hormonal. Pesquisas de Doucet, Blundell e outros grupos apontam que proteínas induzem maior liberação de GLP 1 e PYY. Trabalhos de Howarth, Saltzman e Roberts evidenciam que fibra prolonga o tempo de trânsito intestinal e aumenta saciedade por mecanismos mecânicos e fermentativos. Gorduras modulam CCK, mas não sustentam por tanto tempo.

    A fisiologia é clara:
    o corpo não reage à energia sozinha, mas ao trabalho interno necessário para processar essa energia.

    Quanto mais trabalho, maior a saciedade.
    Quanto menos trabalho, menor o freio.

    O cérebro como intérprete

    Os sinais hormonais chegam ao cérebro, mas o cérebro decide sua importância.

    Pesquisas em neurociência do apetite, como os trabalhos de Morton e Schwartz, mostram que o hipotálamo integra sinais de grelina, leptina e GLP 1 com estado emocional, memória e contexto alimentar. Por isso a mesma refeição pode satisfazer de forma diferente dependendo do momento do dia, do estresse ou até do ambiente.

    A saciedade não é uma leitura passiva do corpo.
    É uma interpretação.

    Essa interpretação não é psicológica no sentido comum.
    É fisiológica com nuance.

    Saciação e saciedade: duas trajetórias diferentes

    A literatura distingue bem esses conceitos.

    Saciação é estudada desde décadas atrás por pesquisadores como John Blundell. Ela é o processo que faz a pessoa parar de comer durante a refeição. Depende de textura, palatabilidade, distensão e sinais de CCK.

    Saciedade, por outro lado, é o que regula o tempo até a próxima refeição. Ela é sustentada pelos hormônios intestinais, pelo ritmo de absorção, pela composição da refeição e pela interpretação do cérebro.

    Misturar saciação com saciedade é achar que peso no estômago sustenta por horas.
    Peso desaparece.
    Fisiologia não.

    O ponto onde tudo encontra a saciedade por caloria

    A fisiologia explica por que alimentos isocalóricos produzem resultados tão diferentes.
    Não é uma questão de “força de vontade”.
    É arquitetura biológica.

    Estudos de distensão gástrica, pesquisas sobre GLP 1 e PYY, descobertas sobre leptina, trabalhos sobre termogênese e digestibilidade, investigações sobre composição alimentar e ritmo de esvaziamento, tudo aponta para o mesmo local:

    o corpo não reconhece calorias como unidade isolada.
    Ele reconhece o esforço digestivo associado a cada caloria.

    E é desse esforço que nasce a desigualdade entre alimentos.
    É esse fundamento fisiológico que permite entender por que a saciedade por caloria faz sentido mesmo sem ser um termo formal da literatura científica.

    Quando a fisiologia se organiza, o comportamento do apetite deixa de parecer instável.
    E o que antes era sensação vira consequência.


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